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  O que são os Pauliteiros de Miranda
  A institucionalização dos Pauliteiros
  Vestígios da tradição dos Pauliteiros e reconstrução da tradição
  Os lhaços
  Conclusão

Barbara Alge, Revista "Brigantia", Jul/Dez 2004

 



 


 


Vestígios da tradição dos Pauliteiros e reconstrução da tradição

Como vivi pessoalmente em S. Martinho durante dois meses, tomei no meu estudo os Pauliteiros de S. Martinho como exemplo da sobrevivência da tradição dos Pauliteiros de Miranda nas festas religiosas do solstício de verão. Comparados com outros Pauliteiros que entrevistei e gravei, eles preservaram ainda mais elementos tradicionais: 

1) constituindo-se exclusivamente de rapazes solteiros, 
2) utilizando o antigo traje de calças na festa religiosa em S. Martinho, 
3) ainda respeitando alguns dos antigos ritos como o convívio dos mordomos, dançadores e músicos no dia antes da festa da Nossa Senhora do Rosário, o cantar nas casas durante o peditório, o dançar dos lhaços Bicha e Rodrigo à volta dum alqueire de trigo, o acompanhar a entrada na igreja e a procissão, etc., 
4) executando o peditório da forma antiga, pois começam às 6.00 de manhã, logo depois da alvorada dos gaiteiros, dançando o lhaço Senhor Mio em frente das igrejas e capelas, rezar em frente das casas que estão de luto, etc,. 

- o que não tem de significar que eles são os mais “autênticos”, um termo às vezes presente no discurso dos Pauliteiros. Precisa-se além disso de acrescentar que outros Pauliteiros de Miranda adoptam também um ou outro destes elementos ditos “tradicionais”.

Os Pauliteiros de S. Martinho confrontam-nos no entanto com outras problemáticas que serviam para futuros trabalhos: por um lado a construção duma identidade local, por outro a “reinvenção simbólica da tradição no presente” (Handler e Linnekin 1984: 280), em que no presente os contextos são bem diferente do passado – sobretudo considerando o seguinte:
Não há nenhuma aldeia em Miranda onde os Pauliteiros deixaram de existir e foram revivificados mais tarde. Embora tenha juntado alguns dados na minha tese, uma reconstrução da história dos diferentes Pauliteiros de Miranda tornava-se impossível por causa da falta de documentos. Uma influência considerável no “boom dos Pauliteiros”, sobretudo a partir dos anos 80, deve-se ao Padre Mourinho e aos Pauliteiros de Miranda promovidos por ele. 

A iniciativa da recuperação de grupos foi e é tomada por antigos dançadores, músicos e emigrantes e a motivação dos dançadores são sobretudo as viagens e o convívio. Reconstruir a história dos grupos é também difícil por causa dalguma confusão do que é que é um “grupo activo” ao contrário dum “grupo inactivo”. Para uns um grupo é activo quando dança exclusivamente na festa religiosa da aldeia, para outros quando se apresenta exclusivamente em actuações “folclóricas” fora de Miranda e para outros quando existe sob as duas formas. Eu defino um grupo “inactivo” quando nem participa na festa religiosa, nem tem possibilidade de se juntar de vez em quando. Apesar de parecer inactivo, um grupo consegue porém juntar-se às vezes para fins “folclóricos”, para actuações fora do quadro funcional das festas religiosas, porque tais actuações significam dinheiro e prestígio (Mesmo a mim afirmaram em parte que um grupo ainda estava activo, embora nunca se tenha juntado durante todo o ano. Eu, a saber, parecia uma provável organizadora de actuações dos Pauliteiros na Áustria).

Ao menos posso dar um número definitivo: há 10 grupos de Pauliteiros de Miranda “oficiais” citados no folheto “Grupos Culturais, Concelho de Miranda do Douro” da Câmara Municipal de Miranda do Douro de 2003: os Pauliteiros de Palaçoulo, Sendim, Duas Igrejas, Malhadas, Fonte de Aldeia, Cércio, São Martinho de Angueira, Granja, Picote e os Pauliteiros da Associação dos Professores do Planalto Mirandês. Na minha pesquisa no terreno, porém, percebi que alguns destes grupos, como por exemplo os de Picote, não estavam activos em 2003 e 2004 e que de facto havia mais grupos capazes de dançar, como por exemplo os de Constantim e da Póvoa.


Entre os Pauliteiros “oficiais” observei uma hierarquia que não resulta da qualidade da música e dança, mas da disponibilidade do grupo. Devido aos problemas económicos da região que levam muitos Mirandeses a trabalhar e estudar fora de Miranda, torna-se óbvio que aldeias mais desenvolvidas como por exemplo Palaçoulo dispõem dum grupo activo. 
Afim de ser muito solicitados para actuações em e fora de Miranda, os grupos competem entre si: Embora à primeira vista não se distingam diferenças entre os diferentes Pauliteiros de Miranda, cada grupo tenta ser mais especial inventando “elementos identitários”. Tais elementos são figuras coreográficas como o salto dos Pauliteiros de S. Martinho no fim de cada lhaço, a força e masculinidade exprimida na maneira de bater os paus dos Pauliteiros de Malhadas, movimentos particulares dos pés, o bater certíssimo dos paus (Pauliteiros de Cércio) e não usar castanholas na parte final dos lhaços (Pauliteiros de Malhadas) etc. Além disso os grupos compõem novos lhaços, na maior parte baseados em melodias conhecidas e com novas letras. 

Um elemento identitário importante é também o discurso de serem os “mais autênticos” – o que é que já foi mencionado no caso dos Pauliteiros de S. Martinho. É bem curioso que os Pauliteiros de S. Martinho defendem a sua autenticidade continuando a utilizar o traje das calças em S. Martinho, mas ao mesmo tempo vestem o “uniforme dos Pauliteiros de Miranda” quando dançam fora da própria aldeia.

Isto leva à questão seguinte: quem ou o que é que define a imagem dos Pauliteiros de Miranda?

As associações locais, nas quais os Pauliteiros funcionam como uma equipa de futebol: tendo um “manager”, um treinador, um uniforme, um salário e, em alguns casos, mesmo um “regulamento do grupo escrito”? 
Os textos escritos por eruditos locais, por jornalistas, por investigadores e curiosos que objectificam a tradição dos Pauliteiros?
Os emigrantes que querem reviver o passado quando voltam as aldeias natais durante o período festivo?


A imagem e emblematização dos Pauliteiros exprimem-se, entre outros na comercialização: hoje em dia podemos comprar paulitos, castanholas, traje dos Pauliteiros, bonecos de Pauliteiros etc. nas lojas turísticas em todo o Portugal, sobretudo nas lojas de artesanato em Miranda e fotografias dos Pauliteiros aparecem em postais e nos restaurantes e cafés mirandeses. Segundo antigos dançadores, os paulitos deviam ser feitos pelos próprios Pauliteiros e a decoração do traje era antigamente dever dos mordomos - organizadores das festas religiosas (entrevista com José dos Ramos Lucas, antigo dançador, Póvoa, 18 de Outubro de 2003).
Refiro ainda que uma das mudanças que a população velha de Miranda lamenta é a folclorização do traje dos Pauliteiros, pois segundo ela os jalecos eram antigamente mais enfeitados e o enfeite era sinal de devoção e elegância. Assim o exprime bem Isabel Meirinhos (cerca de 65 anos) a 23 de Agosto de 2003 em S. Martinho: “Hoje o casaco é pagão!”.

A comercialização afecta os rituais de enfeitar o traje ou de fazer os paulitos e castanholas em casa, como se vê em alguns grupos actuais dos Pauliteiros de Miranda que compram os paulitos. 
Além disso, a tradição dos Pauliteiros é divulgada por rádio e televisão que assistem por um lado à dança dos paulitos nas festas locais de Miranda, por outro convidam Pauliteiros para actuar em emissões. 
Segundo Gualdino Raimundo (cerca de 27 anos), actual Pauliteiro de Palaçoulo, com quem conversei em Miranda do Douro no 6 de Novembro de 2003, os Pauliteiros de Palaçoulo foram convidados para actuar na emissão “Portugal no coração” da RTP no dia 11 de Novembro de 2003. Por causa do espaço limitado, a RTP só pediu 4 Pauliteiros – um certo risco, visto que a dança é normalmente executada por 8 dançadores… 

Contrariamente veremos centenas de Pauliteiros representando a cultura portuguesa no final do campeonato de futebol Euro 2004. A maior parte deles nem sabia dançar, assim me contou um Pauliteiro de S. Martinho que participava neste evento.

No Inverno 2003/04 havia um anúncio na televisão portuguesa, em que dois cozinheiros dançavam “à la Pauliteiro” ao som dos gaiteiros, utilizando as colheres de pau como paulitos. 
Para a divulgação dos Pauliteiros contribuem entre outros os assim chamados Grupos da Recriação da Música Tradicional Portuguesas (Lima 2000) que incluem lhaços no seu repertório. Um exemplo é a Brigada Victor Jara (1979 e 1995) e Galandum Galundaina. O último grupo sendo natural de Miranda enriquece às vezes o seu espectáculo com a dança dos Pauliteiros de Fonte de Aldeia. 
Um “espectáculo”é também produzido pelos grupos de Pauliteiros mesmos quando actuam em frente dum grande público, seja em frente da igreja depois da missa da festa religiosa local, seja nas saídas. Em seguida cito alguns elementos “espectaculares” observados nos Pauliteiros de Miranda:

  • a utilização do traje das saias nas actuações, mas nunca nos peditórios das festas religiosas que ainda são uma sobrevivência da função original dos Pauliteiros, 

  • a exibição do repertório segundo um crescimento do “espectacular”, com os lhaços O 25, que é “um lhaço para partir os paus”, Bicha, em que os Pauliteiros utilizam exclusivamente castanholas e Salto ao Castelo, em que um Pauliteiro salta por cima duma torre humana, no fim,

  • garrafas de água dadas aos dançadores exaustos durante a actuação,

  • os abraços entre os dançadores no fim da actuação – o que me fazia lembrar um jogo de futebol, observado por exemplo nos Pauliteiros de S. Martinho em frente da igreja na Festa da Nossa Senhora do Rosário em S. Martinho,

  • os lhaços Ofícios e Salto ao Castelo, que são, além dos paulitos e saias, logo associados aos Pauliteiros de Miranda pelos Portugueses em geral,

  • outros lhaços incluindo uma coreografia teatral: por exemplo o lhaço Lhiêbre, Senhor Mio, China ou Caballero. Estes lhaços distinguem-se bem da maioria dos lhaços que soam e parecem quase iguais (na minha tese o problema da distinção dos diferentes lhaços foi tratado separadamente e nas transcrições musicais indico elementos que podiam servir para uma melhor distinção).

  • a competição entre os diversos Pauliteiros de Miranda que contribui para uma constante transformação ou reconstrução da dança dos paulitos. Os grupos dão ao show uma nota pessoal alternando a coreografia tradicional pelos já mencionados elementos “identitários” e criando novos lhaços que na maior parte são adaptações de modas ou, como no caso dos Pauliteiros de Palaçoulo, mesmo dum toque de telemóvel,

  • o figurante na capa de honras e o portador da bandeira que acompanham os Pauliteiros nas actuações folclorísticas. A capa de honras nunca aparece nas festas religiosas de Miranda, nunca se utiliza nos ensaios e a sua função na dança dos paulitos é obscura. Talvez se veja nela um elemento tradicional inventado que serve para reforçar o misticismo atribuído à dança dos paulitos. 

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