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  O que são os Pauliteiros de Miranda
  A institucionalização dos Pauliteiros
  Vestígios da tradição dos Pauliteiros e reconstrução da tradição
  Os lhaços
  Conclusão

Barbara Alge, Revista "Brigantia", Jul/Dez 2004

 



 


 

A institucionalização dos Pauliteiros
 

Para mim, “rancho” é sinónimo de “institucionalizado”. Um dos primeiros ranchos de Portugal foi talvez o dos Pauliteiros de Constantim que actuaram na Sociedade de Geografia em Lisboa em 1898. O maior impacto na institucionalização, patrimonialização e uniformização dos Pauliteiros de Miranda teve porém o Padre António Maria Mourinho, que não só escreveu sobre a dança dos paulitos, mas também fundou o Grupo Folclórico Mirandês de Duas Igrejas – Pauliteiros de Miranda em 1945. Este era um grupo de danças mistas de Duas Igrejas que, incluindo os Pauliteiros de Cércio, e mais tarde os de Duas Igrejas, representava os Pauliteiros de Miranda em Portugal e no estrangeiro, produzia gravações comerciais e participava em competições de dança e de arte popular. 

Embora outros Pauliteiros de Miranda lamentem ter este grupo modificado a dança dos paulitos incluindo instrumentos rítmicos (ferrinhos, pandeiros e pandeiretas) que não faziam parte do acompanhamento tradicional dos Pauliteiros (gaiteiros ou tamborileiro) e divulgado a imagem de “homens em saias brancas”, este grupo serviu como “modelo” para os Pauliteiros de Miranda actuais. Nas conversas com Sebastião Martins (85 anos), um antigo dançador dos Pauliteiros de Cércio, aprendi que os Pauliteiros de Cércio já estavam “institucionalizados” e promovidos pela Câmara Municipal de Miranda do Douro antes da direcção de António Mourinho. Além disso, estes Pauliteiros utilizaram o traje das saias, que difere do traje das calças utilizada nas festas religiosas mirandesas, a partir da actuação em Londres, em 1934. Devido à falta de documentos sobre o traje dos Pauliteiros antes do fim do século XIX, não se sabe se o traje das saias foi revivificado pelos Pauliteiros de Cércio por causa da actuação em Londres ou se eles foram inspirados por trajes de outras danças de espadas europeias, talvez inglesas ou espanholas. 

Um bom exemplo para a distinção feita entre a forma “rancho” e “tradicional” dos Pauliteiros, é S. Martinho de Angueira: há 4 anos o antigo dançador e actual chefe dos Pauliteiros de S. Martinho, Fortunato Preto (cerca de 55 anos) e o gaiteiro Desidério Afonso (cerca de 50 anos) fundaram nesta aldeia os Pauliteiros “folclóricos” segundo o modelo dos Pauliteiros de Cércio para as “saídas”, ou seja, actuações fora de S. Martinho. Quando falo do “modelo” dos Pauliteiros de Cércio penso na apresentação com saias brancas ao contrário das calças pretas que os dançadores de S. Martinho ainda vestem na Festa da Nossa Senhora do Rosário no último domingo de Agosto. Curiosamente, alguns rapazes, assim Fortunato Preto me contou, participam somente ou no “rancho” ou na festa em honra da Nossa Senhora do Rosário.

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