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  O que são os Pauliteiros de Miranda
  A institucionalização dos Pauliteiros
  Vestígios da tradição dos Pauliteiros e reconstrução da tradição
  Os lhaços
  Conclusão

Barbara Alge, Revista "Brigantia", Jul/Dez 2004



 


 

A popularidade dos Pauliteiros de Miranda
Barbara Alge, Revista "Brigantia", Jul/Dez 2004

Este texto dá uma ideia geral do meu estudo sobre a dança dos Pauliteiros, escrito como tese de mestrado intitulada “Continuidade e mudança na tradição dos Pauliteiros de Miranda (Trás-os-Montes, Portugal)” e defendida na Universidade de Viena (Áustria) em Abril de 2004.
Embora a tese inclua diferentes aspectos dos Pauliteiros, entre outros uma análise do repertório, incluindo algumas letras, música e coreografia, estudado ao longo do tempo e comparado entre os actuais grupos de Pauliteiros do concelho de Miranda, concentro-me nesta reflexão na folclorização ou na popularidade actual dos Pauliteiros de Miranda. Barbara Alge


O que são os “Pauliteiros de Miranda”?

Por causa da opinião geral que “os Pauliteiros de Miranda são um grupo de dança original de Miranda do Douro”, preciso esclarecer logo do princípio que não se trata dum grupo, mas de vários grupos de diferentes aldeias do concelho de Miranda. Embora em Portugal a dança dos Pauliteiros se tornasse emblema da cidade de Miranda do Douro, a dança dos paulitos faz parte dum género de dança chamada “dança de espadas” que se encontra no mundo inteiro. Segundo Stephen Corrsin (1997: 1) o tipo de dança de espada dito “encadeado”, a que pertence a dança dos Pauliteiros, existe exclusivamente na Europa e em territórios colonizados por Europeus. Citações desta dança remontam à Idade Média, mas devem evitar-se hipóteses sobre a sua origem – sobretudo por causa da constante modificação e adaptação desta dança a circunstâncias históricas. No meu estudo cito elementos guerreiros, religiosos e rituais da dança dos Pauliteiros sem classifica-la definitivamente numa destas categorias. Em Portugal ainda se encontram outras danças de espadas sendo a maioria conhecida como “mouriscas” – das quais curiosamente nenhuma tornou tão popular como as danças dos Pauliteiros de Miranda. 

 É importante mencionar que os Pauliteiros não se restringem exclusivamente ao concelho de Miranda, mas existem também noutras localidades próximas de Miranda. Por fontes escritas constatei que a dança dos paulitos se dançava e se dança nos concelhos Vimioso, Bragança, Vinhais, Mogadouro, até mesmo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Hoje em dia fundam-se além disso grupos de Pauliteiros em outras regiões portuguesas, sobretudo nas tunas de estudantes, e nas comunidades portuguesas no estrangeiro. Embora um capítulo aborde a fundação de grupos de Pauliteiros nas comunidades portuguesas no estrangeiro, e a expansão dos Pauliteiros em Portugal, o meu estudo concentra-se sobretudo nos Pauliteiros de Miranda, pois nos grupos do concelho de Miranda. Devido à facilidade de ver actuações dos Pauliteiros de Miranda em todo o Portugal, preferi estudar a dança dos paulitos no contexto dito mais “tradicional” e por isso passei três meses de trabalho de campo em Miranda entre Agosto 2003 e Setembro 2004. Em Junho 2003 pesquisei também na comunidade portuguesa de Saint-Denis (Paris). O resultado das pesquisas no terreno e em bibliotecas e arquivos portugueses, é o primeiro estudo sistemático de diferentes aspectos dos Pauliteiros de Miranda. No entanto, as obras de António Maria Mourinho e doutros autores mencionando os Pauliteiros no quadro dos seus estudos sobre cultura mirandesa (ver Vasconcelos, Alves, Schindler, Gallop, Veiga de Oliveira, Giacometti e Caufriez) serviram-me como base.

A restrição a Miranda resulta também da suposição de que em Portugal esta dança se enraíza nesta zona, onde poderá ter chegado através da população de León. A saber, a danza de palotes ou paloteo é muito divulgada em Espanha. Uma confrontação com o repertório dos Pauliteiros de Salselas (Macedo de Cavaleiros) (Cravo 2000) mostrou que havia mais adaptações recentes de modas portuguesas (Canções e danças populares portuguesas) nos lhaços Salselenses do que de Miranda (O termo lhaço designa a marca individual ou melhor dito a peça musical e coreograficamente fechada da dança dos Pauliteiros. Os lhaços constituem junto com os passacalles o repertório dos Pauliteiros). Não se pode dizer, porém, que devido a um repertório mais “moderno” e devido à aglomeração de grupos de Pauliteiros na zona de Miranda, todos os Pauliteiros, incluindo os de Salselas, são uma imitação dos Mirandeses – um discurso às vezes encontrado na população mirandesa. 

Contudo, os Pauliteiros definem em comum com a língua mirandesa uma comunidade: a dos Mirandeses.

Dentro dos chamados ranchos folclóricos (grupos representando tradições locais de música e dança, encontrados em todo o território de Portugal e no Estado Novo utilizados como propaganda ideológica),  os Pauliteiros tomam um lugar especial: eles constituem-se exclusivamente de homens, vestem um costume bem diferente dos outros ranchos e a coreografia complexa com paulitos e castanholas chama a atenção. Além disso, por causa das semelhanças com a danza de palotes espanholas são por vezes não considerados como fazendo parte do folclore português, por outro lado são defendidos pelos Mirandeses como sendo mais “autênticos” do que os ranchos uniformizados de Portugal. 

No meu estudo a expressão “rancho dos Pauliteiros” serve porém como contraparte aos dançadores que ainda executam as suas funções nas festas religiosas de Miranda. 
Aqui preciso acrescentar uma questão interessante: Antigamente, e em Miranda ainda hoje, os “Pauliteiros” eram chamados “dançadores”. Visto que em Espanha os “Pauliteiros” se chamam danzantes, o segundo termo parece mais correcto. Não se sabe a partir de quando a expressão “Pauliteiros” foi utilizada e por quem foi inventado. Fora de Miranda, os dançadores mirandeses são exclusivamente conhecidos como “Pauliteiros”. De qualquer modo, este termo já aparece nas Memórias do Abade de Baçal (Alves 1990 [1925]).

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